Dos pampas

Nesse mês de janeiro viajei à Argentina com mais duas amigas e realmente foi algo muito bacana por vários motivos: conheci pessoas divertidas, vi lugares bonitos e estranhos (e isso pra mim pode ser de modo simultâneo numa boa), tive de conversar em outras línguas etc etc etc. Foram 20 dias de viagem, e muita coisa aconteceu, mas no fim das contas acho que poderia destacar que:

1. Vi uma quantidade enorme de filmes! Viajamos de uma cidade a outra via bus - viagens longas que chegaram a 24 h - então sempre rolava um filme no dvd do ônibus. Em uma das viagens vimos a coletânea particular do motorista com os filmes do Silvester Stallone, inclusive - pasmem! - um em que o Pelé co-protagoniza com ele!

2. É possível ser vegetariana na Argentina, mas nem sempre é fácil, é necessário procurar um pouco para achar alguém além de parrilla e jamón. Buenos Aires tem alguns restaurantes com menu bacana e variado, mas Mendoza por exemplo não foi tão simples assim: achamos um somente no último dia (com uma ótima empanada de tomate e queijo!). Córdoba ganhou o prêmio de "melhor restaurante vegetariano do país", com uma ótima relação custo-benefício - sabor. Puerto Iguazú agradou graças à boa vontade do garçom, e Salta pelas incríveis empanadas! =)

3. As pessoas foram todas extremamente solícitas com nosso espanhol precário: estou ainda estudando a língua e não é simples atingir o acento correto em palavras que, graficamente, super-parecem com português (mas que soam mto diferentes quando faladas!). As vezes a solução era apelar para o inglês e a quase universal mímica. Meu vocabulário de espanhol cresceu muito com as expressões ouvidas nas ruas.

4. As paisagens argentinas são mesmo belas. O Noroeste principalmente me chamou a atenção com a oscilação entre aridez e verde. A Quebrada de Humauaca é algo incrível com suas cores múltiplas, os cactos cheios de histórias *, as marcas dos povos indígenas que ali viveram e ainda vivem. A imagem dos túmulos no alto das montanhas também é forte e bonita.

5. Stella Artois. Apesar de estarmos na Argentina, nossa cerveja-tema da viagem foi, disparada, a Stella! Daria um segundo lugar, talvez, à Salta escura.

6. Sim, a relação peso-real ajuda em muito a viagem, mas já esteve muito melhor antes da crise estourar. Até vi uma manchete da Newsweek argentina (ou algo assim) que dizia porque a crise tinha sido algo bom no fim das contas. De qualquer modo é sempre surpreendente fazer as conversões antes de comprar uma camiseta e constatar que, para nós, aquilo é mesmo barato. O país ainda tenta se reerguer da quebra, alguns lugares têm um certo clima de "gastos", embora em recuperação.

7. Viajar no esquema de mochilão dá mais trabalho em relação a comprar um pacote e tudo o mais, mas é (foi para mim) infinitamente mais signicativo e interessante! Ter de organizar dinheiro, calcular tempo de viagem, poder escolher pra onde se vai e quando se vai etc; é uma liberdade necessária e divertida - mesmo que trabalhosa. Ah, dica: há pessoas que até preferem malas de rodinhas às mochilas, tudo bem, mas é bom que seja pequena. A enorme mala de uma das viajantes deu muito trabalho - e o que falar, rs - em todas as cidades!

8. Caso me lembre de algo, posto aqui. Acho que esse é o post mais "querido diário" já escrito neste blog. ;-)


* soube de duas histórias relativas aos cardones (os cactos da Quebrada). Uma é uma lenda indígena que diz o cacto e a flor que nele brota são um casal que não pode ficar junto por conta de diferenças hierárquicas - ela era filha do cacique, ele era apenas um membro da tribo. Então, Pachamama (a deusa da terra) decidiu uni-los para sempre, apesar das recusas e perseguições do pai. A outra história tem a ver com a política militar argentina. Foi assim: no início do século XIX rolou uma guerra e o general Belgrano assumiu uma das frentes contra um outro general que me escapa o nome agora. Enfim, acontece que o Belgrano não tinha um exército preparado nem numericamente, nem tecnicamente, para enfrentar a batalha que estava por vir - e as tropas inimigas avançavam - então teve uma idéia: vestiu os zilhares de cactos com sombreros e ponchos que, vistos de longe, aparentavam ser um enorme batalhão! Com isso assustou os inimigos, ganhou dois dias a mais para reorganizar a tropa e venceu essa batalha entrando triunfalmente em Salvador de Jujuy! Idéia triunfal de desenho animado! =)

Comentários

Jaqueline disse…
Para Roberta (será que vc vai ver por aqui?):

Ainda sobre pensar, caminhar e registrar: sabe que já tentei gravar pensamentos em bloquinhos miúdos de notas e também no celular, mas acho que falta o vínculo afetivo com a forma de registro... Não sei se um gravador a la Silva e Silva, talvez a memória por si já cumpra a função, filtra e significa. ;-)
amarelo disse…
querida, obrigada pela mensagem! que legal sua viagem, tirou fotos? podia colocar aqui hein.

meu blog já tá funcionando direitinho viu?
bjs
Fábio Custódio disse…
Muito bem Jaque e meninas, viagem maravilhosa, com coisas ilárias, descrição de paisagem, folclóricas...Bela narrativa, a serem complementada com fotos e um café (meio amargo)!

Espero que tenha recarregado a energia para o início do ano!

Bjs
Andrea de Lima disse…
gente, que delícia. fui uma vez à Argentina e fiquei só uma semana. não dá pra muita coisa. pretendo (e muito em breve) fazer o que você fez. mas gostaria de visitar mais países. bom, veremos o que o destino me aguarda.

adorei as dicas. e não gosto de stella. o povo daqui de cps adooora, mas eu acho muito forte, hehe!

posta uma foto na próxima!

até mais ler.
Jana disse…
Quero muito conhecer a Argentina. Deopis desse post, fiquei ainda mais curiosa :)
Roberta disse…
Resposta tardia ao seu comentário feito aqui:

"Vínculo afetivo com a forma de registro". Definitivamente é o que falta e torna frustradas minhas inovadores tentativas de captar o instante.

...

Lendo seu post, impossível não sentir uma vontade danada de correr mundo! :)

Beijos, e que tudo esteja bem por aí!

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