Monet em tempos instagramáveis - a arte mais acessível, a arte em transformação

No Vila Lobos há uma atividade imersiva sobre a obra de Claude Monet. Digo atividade pois, até agora, não consegui pensar numa palavra mais específica para chamá-la... Para mim, não se trata exatamente de uma exposição ou instalação, e acho experiência um termo que tem sido tão banalizado como algo que se "oferece mediante o pagamento de um valor a mais" e não como o atravessamento do qual fala Larrosa e outras pessoas estudiosas do assunto. 

Enfim, sobre a atividade imersiva então. Em primeiro lugar, amo Monet: como já escrevi, ele foi o primeiro artista que visitei uma exposição há quase 25 anos: era uma excursão da escola ao Masp e para mim foi um impacto incrível. Li todas as legendas, fiquei encantada com a organização das obras (bem diferente da atual do Masp que remente, por sua vez, à disposição original usada no museu em seus primeiros anos), e compreendi o quanto havia mesmo no mundo a se conhecer... Fora o fato de dimensionar as obras que até então eu só via nos livros didáticos: era minha primeira vez no museu e foi educativo em muitos níveis, desde a postura que se espera em relação às normas do lugar até mesmo da suspensão do tempo para observar e interagir com as obras. E aí que está o meu comentário sobre a atividade imersiva que conheci ontem. O mote da atividade foi desenvolver as relações entre Monet e a fluidez das águas, e mesmo a efemeridade que evoca. 

As obras de Monet foram projetadas ou exibidas em diferentes suportes como telas enormes, monitores com os quais o público poderia tocar e "colorir" as obras exibidas, alguns poucos textos sobre o artista e sua obra em vários idiomas, além de um espaço simulado do que seria a casa do pintor em Giverny (acho) e vários estandes de vendas de comes e beber. Há alguns ambientes mas o principal é um espaço amplo cercado de muitas telas enormes, com uma esfera que para mim parecia muito com a lua pendurada e uma reprodução de um lago com a ponte sobre ele (que evoca várias pinturas de Monet). O ponto é: são tantos estímulos, visuais e sonoros com as diversas músicas, há tanta convocação por toques, leituras, selfies etc., que para mim é muito difícil pensar naquela suspensão do tempo corrido, presente, para se deter sobre a obra. Colocar em diálogo o que se tem em si, pela trajetória e gostos, e o que a obra acrescenta, provoca, emociona. 

Nos dias de hoje temos muito acesso a diversas tecnologias que podem facilitar o acesso às obras até então restritas aos museus de países distantes. Em uma atividade como a do parque Vila Lobos, lá estão acessíveis reproduções de pinturas diversas, algumas expostas em seus originais no Masp mas também em outros tantos lugares do mundo. Porém não são as obras, são suas reproduções num mundo cada vez mais calcado na reprodução em vários suportes e qualidades, e a relação do público que se convoca não é de silenciamento, mas de consumo rápido e mais reproduções com as fotos, os vídeos e, em especial, as selfies. Também fiz isso, aliás. 

Ao final do passeio, pensei que a atividade tem uma proposta interessante, provoca a conhecer alguns aspectos da obra de Monet, mas que não me tocou em nenhum momento. Falo de mim, claro, e talvez da minha amiga que estava comigo (a conferir, rs). Falta contexto para o arrebatamento, ainda mais quando há a preocupação de buscar os melhores ângulos para posts super clicáveis. Por outro lado, quantas pessoas ali presentes falando de Monet, conhecendo suas pinturas (mas o fato da atividade ser rápida e desembocar numa loja, que proporcionalmente me pareceu bem importante para a proposta do lugar, provoca a pensar sobre do que se trata). 

Benjamin falou, em alguns de seus textos, do declínio da aura da obra de arte. Lá estava ele, lá atrás, vendo que a reprodução técnica, em escala, recolocava a produção artística em outro lugar: qual seria ele nos dias de hoje? Será que os termos que até então usávamos para falar da arte, e seus espaços, foram ressignificados ou alterados de fato? Acho que Benjamin, Certeau e um tanto de pessoas sabidas sobre o assunto bem tem a contribuir para refletir sobre isso. Talvez eu volte ao assunto...


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