Sobre chips e humanos

Fantástico, 12/08/2007

Nesse domingo no Fantástico houve uma matéria sobre um tal de cyber cientista que tem realizado testes de implante de chips com o fim de criar uma espécie de simbiose entre pessoas e máquinas. No caso a cobaia é ele próprio mas, como toda experiência de grande porte, seus objetivos estendem-se à toda humanidade...
*
O que acontece é que agora que o implante no braço apresentou resultados quanto aos comandos motoros, o cientista (cujo nome realmente não me lembro), pretende partir para uma nova e ousada fase em seu experimento: implantar um chip em seu próprio cérebro.
*
Uma das possibilidades "incríveis" para o futuro apresentada pelas pesquisas é que o tal chip poderia fazer as vezes de um pen-drive de conteúdos, de conhecimentos que hoje, por mais que a internet esteja disseminada ao ponto que está, ainda são resposabilidade da escola.
*
Sou radicalmente contra qualquer tentativa de transmissão automática de conteúdos. Escola é muito mais que "conteúdos", é uma experiência insubstituível e necessária de transitoriedade entre a vida privada e a vida pública. É um espaço de socialização, de troca de experiências, de convivência, de aprender muito mais que os programas de vestibulares: a escola é, por excelência (ainda), um local de aprendizado da cidadania, do viver em grupo, do inserir-se no mundo de seus pares. E isso, chip nenhum é ou será capaz de reproduzir.
*
O que mais me assusta é que, além do tal cientista, há uma enorme quantidade de pessoas que achariam o máximo a transferência, que não dão a mínima bola para a beleza, o encanto que é a construção diária do conhecimento, os conflitos instigantes (para o bem e para o mal, é verdade) que só ocorrem no espaço da sala de aula, nas relações entre professor e aluno, aluno e aluno.
*
De tudo essas declarações também mostram um pouco o descrédito que vive a escola e das possibilidades que ela deveria abrir, do seu papel político e social. Uma pena. Mas também um convite para quem quer pensar o atual estado de coisas, para quem ainda acredita que a educação não é apenas um mal obrigatório que todos devem passar, do que jeito que der. A escola foi e está sendo escamoteada de diversas maneiras, esvaziada de seus objetivos primários talvez até pelas transformações que vivemos em nosso tempo e as exigências e conceitos vigentes; mas eu não posso e não quero acreditar que um ser humano prefira a facilidade artificial e rasa de um chip à convivência e aprendizado entre seus iguais. Lamentável, de verdade.


Comentários

Postagens mais visitadas